O mesmo
Conhece o rancor como à palma da mão. Obstinado, onde o ódio estiver ele irá. É um doido varrido, raivoso - tolo - que em seus dias mais doces pecou pelo mau gênio. É tão intenso que deixa tonto.
Desde que o conheci ouço dizer que vai escrever um romance. É curioso vê-lo organizar em fichas a vida de personagens que nunca entraram em cena e fazer versos que ninguém mais ousaria (míope leitor de si mesmo), essa espécie de camicase que ensaia a própria morte várias vezes, e que nunca termina o que se põe a dizer.
escrito em
10.10.08
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No osso
A expressão "chegar ao osso" não é banal nem gratuita: nos conduz à revelação última, íntima (caídos todos os véus); manifesta o desejo de atingir o núcleo duro, o tutano das coisas. Segundo a metáfora anatômica, "linguagem de medulas e espinhas". É a desconstrução do objeto até chegar à estrutura seca, ou o que o açougueiro faz quando livra a carne da gordura e atira o osso aos cães.
Abaixo, minha tradução (incompleta) para o poema Bone dreams (Sonhos ósseos), do poeta irlandês Seamus Heaney:
I
Osso branco encontrado
no pasto:
a áspera, porosa
língua do toque
e sua impressão amarela
grelhada na grama—
pequeno resíduo de um naufrágio.
Frio como pedra,
duro de encontrar, pepita
de giz
que toco outra vez
e a refresco
na atiradeira das idéias
para cravá-la na Inglaterra
e seguir seus saltos
em campos estrangeiros.
II
Casa óssea:
um esqueleto
nas velhas masmorras
da língua.
Refuto
com as dicções
os dosséis elisabetanos.
Os artifícios dos normandos,
as primaveras eróticas
da Provença
e o latim de hera
dos homens da igreja
ao som metálico
da pá, clarão
do aço consonantal
crivando a linha.
(...)
escrito em
30.8.08
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"O destino de uma literatura está preso aos seus grandes homens. Eles constituem, sem dúvida, o reflexo de um corte social e econômico, mas sem a força expressional de sua personalidade, outros podiam ser os caminhos abertos para o futuro. Sem Whitman talvez a América do Norte fracassasse por muito tempo na mão adunca de seus pioneiros, longe de encontrar a sua missão de democracia e humanidade. A presença de um grande escritor impossibilita a inflação dos valores medíocres e põe sempre no julgamento crítico um ponto alto de referência e de destino."(Oswald de Andrade, Atualidade d'Os Sertões em Feira das Sextas. Ed. Globo)
escrito em
27.12.07
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Da série "Teses da PUC que até gostaríamos de ler"
This is a man's world, de James Brown
Na canção It's A Man's, Man's, Man's World [O mundo é dos homens] Brown contrapõe verso a verso as principais diferenças (ou as funções sociais mais características) de cada um dos sexos, sempre sob o ponto-de-vista peculiar do Protestantismo norte-americano enraizado nas texturas percusivas africanas. O mundo lá fora é árido, feito para homens fortes, brutos. Mas o que seria de toda essa força e progresso acaso inexistissem as mulheres?
James Brown - It's A Man's, Man's, Man's World
This is a man's world
This is a man's world
But it would be nothing
Nothing without a woman to care
You see man made the cars
To take us over the world
Man made the train
To carry the heavy load
Man made the electro lights
To take us out of the dark
Man made the bullet for the war
Like Noah made the ark
This is a man's man's, man's world
But it would be nothing
Nothing without a woman to care
Man thinks of our little baby girls And the baby boys
Man make them happy 'Cause man makes them toys
And aher man make everything, everything he can
You know that man makes money to buy from other man
This is a man's world
But it would be nothing, nothing
Not one little thing
Without a woman to care
He's lost in the wilderness
He's lost in the bitterness
He's lost, lost and .....
escrito em
22.5.07
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De Sartre aos emos
De cerejas tatuadas nas espáduas, além de asas, metais indefectíveis trespassavam-lhe as narinas e sobrancelhas. Ao entrar na adolescência adotou uma postura praticamente imprevisível e passou a ouvir rockabilly, neo-swing e ia a baladinhas do tipo Milo, Funhouse (e uns outros mais alternativos.) Maconha é coisa de preto, ouvia nos lugares aonde ia. E nós, me disse um dia, nós gostamos é dos psico-ativos. Naquela época ela queria cobrir o braço, e já tinha dois desenhos em vista. Nada de tattoos de dragão, já que não abre mão da franja à moda Bettie Page.
escrito em
3.5.07
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O blues curtido de Odetta
escrito em
20.4.07
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Progressive Zombie
Como o próprio título sugere, a trilha sonora do filme Zombie Holocaust é um bomba. Mas no bom sentido. O compositor italiano Nico Fidenco assina uma trilha puramente sensorial, pulsante e claustrofóbica, com toques de jazz, funk, jungle e batidas obstinadas que muitas vezes lembram o techno. Obra exploitation da mais suprema tosqueira e oportunismo, tem a manha de combinar dois outros sub-subgêneros aparentemente inconciliáveis numa só história: canibais & mortos-vivos. Para fazer download da faixa 8, clique aqui.
escrito em
15.4.07
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Battle Royale ou "gincana sádica"
E à frente da sádica empreitada, feito um Big Brother sanguinário, o ator Takeshi Kitano (de Zatoichi) interpreta um professor outrora ridicularizado pelos alunos, que nos faz lembrar de alguns ditadores que o Oriente já abrigou. As regras do jogo são bem simples: presos numa ilha e controlados por uma coleira magnética (que os degola caso ultrapassem os limites da praia), os estudantes são forçados a se matarem uns aos outros para saírem ilesos do jogo. Em muitos momentos o filme nos lembra o seriado Lost, que se vale de flashbacks a todo instante para nos remeter à vida anterior de seus protagonistas e explicar suas motivações. Garotas de saia colegial e meias brancas*, bem ao gosto perverso japonês, e rapazes uniformizados são abruptamente levados a se matarem com requintes de crueldade, seja com metralhadoras, machados, facas ou revólveres, como se de repente um Robert Rodriguez passasse a dirigir o seriado Malhação da Rede Globo. E a cada morte, as baixas são mostradas sob a forma de estatísticas na tela, como se num videogame ou intervalo de jogo de futebol.
BR acaba sendo uma leitura muito peculiar feita pelo Japão do fenônemo rebelde, minissaias & gravatas. Quem não se lembra daqueles programas de disputas entre colégios? Só que desta vez com metralhadoras e facas.
escrito em
8.4.07
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Introdução ao "Dicionário de Corporativês"
E no início era o mundo. Só depois é que veio a palavra "corporativo." Com esta, mais tarde, viriam outras, todas elas pomposas e cheias de virtude (nomes bonitos para coisas que já existiam) e quiseram os homens de terno e gravata que se tornassem norma, uma espécie de insígnia, e atrás dela toda uma sorte, "todo um processo" de coisas, complexos, adjetivos desonestos, essências, carícias, positivismos, maneirismos (sempre o político & correto.)E pobre de nós, brasileiros, que admitimos em nossas vidas um léxico, convenhamos, intrusivo, que pode soar natural em inglês mas em português soa arrivista. Como diria o homem de capacete do ABC a brandir com seu megafone "malditos pelegos!" Enquanto isso senhores de terno e gravata ao redor da mesa gastam horas reunidos a debater em vão, a teorizar sobre o intangível. Líderes, resultados e trabalho em equipe: na verdade todos cúmplices da máxima segundo a qual não há receita para o sucesso & poder da qual se exclua a desumanização do indivíduo.
escrito em
17.3.07
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O humor extremo de Borat
Mistura de documentário e ficção, Borat leva o sarcasmo às últimas conseqüências
Ao se passar pelo jornalista cazaque pornomaníaco, misógino, anti-semita e racista (e o que mais?), Sacha constitui-se uma verdadeira isca para o discurso voraz e preconceituoso do homem médio americano que, ao comprar a idéia do homem tosco a ser civilizado, acaba expondo sua faceta mais mesquinha e nefasta. A seqüência em que canta o hino com a letra trocada durante um rodeio no Texas é prova disso. Reza a lenda que Sacha e sua equipe precisaram sair às pressas do local para não serem linchados. Um exagero. No entanto é difícil de se dizer o que foi armado e o que não foi por seus realizadores. Neste aspecto, Borat tem momentos surreais, tais como aquele em que o homem por trás do bigode se atraca com seu produtor obeso no quarto do hotel, ambos nus e devidamente tarjados, na sublimação mais sublime da homossexualidade jamais levada a cabo por dois humoristas.
Seu anti-semitismo grotesco e escandaloso seria impensável se o próprio Sacha Baron Cohen não fosse judeu. Sob uma estampa histriônica e escatológica, Borat faz rir e pensar com seu sarcasmo profundo e sutil, se é que se pode encontrar sutileza nas maneiras abertas e francas do personagem. Borat é, afinal de contas, uma caricatura mordaz e cretina do mito que se criou em torno dos povos da Ásia Central, supostamente incivilizados e bárbaros. Através do exagero propositado das maneiras de seu personagem, o roteiro bem construído aliado à atuação genuína de Sacha constituem-se um pastiche dos road-movies americanos. De resto, pode-se dizer que Borat é puro semblante, impassível em sua "ingenuidade" diante de qualquer grau de civilidade (seja numa conversa com um cowboy fascista ou rodeado por feministas sisudas), e sua presença em cena é praticamente uma intervenção, termo aí despido de qualquer pretensão contestadora ou vanguardista. Híbrido de pegadinhas à la João Kléber, jornalismo gonzo à la Ernesto Varella e subversão à moda Lars Von Triers (vide Os Idiotas), Borat é cretino e sublime ao mesmo tempo.
Sabedoria boratiana (tiradas do site www.borat-quotes.com):
"Jagshemash! My name a Borat. I like you. I like sex. It's nice. These are my country of a Kazakhstan."
"My mother, she never love me. (Stifled chuckle) She say she wish she was raped by someone else."
"Now her vajine is loose like a wizard's sleeve."
"I hope President Bush drinks the blood of every man, woman, and child in Iraq!"
"My sister...she´s a...prostitute. (Answer: That´s sad, why?). She like to make money, high five!"
"May I ask you are a man who does with another man?"
escrito em
22.2.07
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Virtuosismo fin-de-siècle
Podemos perceber quando o mal é o virtuosismo à medida que a performance passa a ter mais importância que o propósito de sua existência. Na música, solos de guitarra que contemplem inúmeras escalas num tempo muito curto. Cantores que abusam do vibrato. Tudo muito pirotécnico, mas nenhuma propriedade.
No cinema, que tal os efeitos-especiais? Ou as tramas de Hollywood que se fecham, confudem, mas no final se resolvem com um deus ex-machina? (leia-se abdução ou o famoso "não passou de um sonho")
Diagnóstico
Fico pensando que para tudo há um grau de entropia, uma crônica do caos anunciada. A maioria dos grandes mestres chegaram a esse ponto, mas qual não foi sua maestria ao sublimá-lo? Não podemos eliminar o ruído de nossas vidas, pois sem ele nossos ouvidos jamais se acostumariam. O que seria do puro sem o impuro, do cult sem a corruptela? Sem os metais não saberíamos como é o timbre piano. De um lado Chet Baker, de outro James Brown. Ambos são necessários.
"Goodness is timeless" (W. H. Auden)
Arte é contenção, virtude. Há muito de moral em tudo isto. Não pode se tornar histérica, mecânica, evasiva. Quando deixa de ser virtude, de ter vontade sobre o caos, transforma-se em mania e obsessão, e perde sua beleza. A Musa é uma mulher faceira, não se deve melindrá-la com o excesso gratuito. É o que acontece quando perdemos a dimensão do que é ser diligente, algo próximo de Bach e sua vivacidade presumida no andamento de suas fugas e cantatas; nas aliterações persistentes da poesia homérica; no estalo de chicote das imagens de Shakespeare. Já não se pensa mais no produto acabado, final, que chegue a um ponto em que não são admitidos mais retoques. Digamos que o mal de nosso tempo é o que chamam de obra-aberta, essa tal "arte experimental."
escrito em
13.2.07
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Viva o prefeito! - parte II
escrito em
5.2.07
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Viva o prefeito!
escrito em
17.1.07
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Eu prefiro estar com você
(George Clinton / Bootsy Collins / Gary "Muddbone" Cooper)
escrito em
16.1.07
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Natal decantado
Só sei que os anos passam e ainda considero inapreensível o espírito de Natal, soterrado sob um imaginário absurdo, espalhafatoso e exagerado; espírito que continua a ostentar emblemas insípidos como barbas brancas, pináceas enfeitadas, clima nórdico, crianças rosadas de frente à lareira ou, o que é mais curioso, renas puxando trenó (cenas da vida à la Norman Rockwell.) E há, é claro, os presentes que não podemos deixar de dar a quem amamos. Digo que discutir a essa altura seu significado é uma tarefa inglória, sobretudo no que há de religioso, pois há quem possa se ofender... Mas se os rituais de hoje parecem nonsense, devo observar que suas causas ancestrais talvez já não valham mais nada. Quem é afinal o inimigo do Natal? O Capital? Certamente não sou o primeiro a dizer que tudo isso é meio vago. Já parou pra pensar que disparate esse negócio de nego vir lá da Lapônia nesta época do ano? E quem é que disse que as crianças amam tanto esse engodo? Alguém já experimentou contar-lhes outra história?
escrito em
18.12.06
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A Pastorinha
escrito em
10.12.06
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Domingos de Morais, 9h
escrito em
12.10.06
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Highly recommended
escrito em
19.9.06
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Comentário sobre Robert Frost
Um belo dia um vento frio irá lhe contar algo daquilo que você deixou de lado, amigo. Procure ter calma ao se dar conta de ter decidido seguir por onde a grama parecia menos rala. É razoável pensar que esse caminho talvez seja o menos procurado, afinal quem não quer exclusividade? Mas seriam sinais confiáveis? E se os demais viajantes caminharem descalços?
escrito em
15.9.06
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