Tiro no pé
A palavra essencial deveria ser riscada do dicionário com um traço azul e torto de caneta Bic.
sf. texto agressivo ou premeditadamente ofensivo para com um determinado interlocutor
escrito em
8.7.06
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Ao fundo cortinas vermelho-escuras; em primeiro plano um candelabro aceso sobre o piano de cauda preto; a luz do dia invade a sala através de uma vidraça ampla e translúcida, com uma piscina de vista, de cuja superfície vítrea se vê escorrer um filete de sangue (ênfase no vermelho-escuro contra o azul saturado do mar nalgum lugar da costa espanhola) Também chamam a atenção seus cabelos negros, assimetricamente partidos ao meio, a toldarem o rosto pálido e vamp de Soledad Miranda (musa portuguesa do diretor, morta aos 27 anos num trágico acidente de automóvel.)
escrito em
18.4.06
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Nada. Nas páginas dos jornais daquele dia nada apontava para um desfecho incomum como aquele seria. Fosse como fosse o andamento das coisas, era algo a se dar conta apenas no momento em que aconteceria, algo que nunca teve por costume anunciar-se. Um instante condensado, já que a palavra de ordem é síntese; ou clímax, se o assunto for dramático (ou até mesmo ponte ou bridge se estivermos falando das síncopes) ou mesmo de quando o coração está apenas palpitando. A João Cabral de Melo Neto me reporto:
Uma onda que parava
naquela hora precisa
em que a pálpebra da onda
cai sobre a própria pupila.
escrito em
11.4.06
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"Aos olhos dos outros, um homem é poeta se escreveu um bom poema. A seus próprios, só é poeta no momento em que faz a última revisão de um novo poema. Um momento antes, era apenas um poeta em potecial; um momento depois, um homem que parou de escrever poesia, e talvez para sempre." (W. H. Auden)
escrito em
11.4.06
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conhece a memória de ouvido
e sabe ouvir sem
dar ouvidos.
Feito o declínio do Giroscópio,
verdadeiro e inequívoco
fruto da certeza ali reinante,
aquele mesmo poder
de encantar das cartomantes. Igual
ao pescoço da pomba
realçado pelo sol;
é a própria memória do olhar,
consciente e instável."
Trecho do poema "The Mind is An Enchanting Thing" [A Mente é Algo Encantador] da poetisa norte-americana Marianne Moore.
escrito em
2.4.06
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Quando penso na possibilidade de eu passar o dia inteiro de frente ao computador e, quando chegar em casa, constatar que o de lá também está ligado, me dá calafrios de imaginar... Mas é o que eu faço. E olha que o meu demora a desligar.
Enquanto eu deitado sei que, pelo ronco de seus ventiladores infernais, sua máquina conspira contra a minha indiferença, temo, suspiro e rolo na cama sobre os meus livros. O que me apazigüa é pensar que ele uma hora há de delisgar-se.
Esse fato atinge seu clímax de maneira invulgar apenas quando, urge explicar, quase me vi obrigado ao prejuízo de arremesá-lo através da janela ou, o que é mais cômico, enfartar. É duro ser engrenagem, meu rapaz, é o que eu digo.
escrito em
16.3.06
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Ela era doce e linda, pura e ingênua, bela e frágil, além de todos aqueles binômios que não saem da cabeça dos marmanjos que punham à frente de seus julgamentos o encanto que nutriam pela moça. De tão embasbacados, digamos, as paixões que dali comumente advinham não chegavam a causar espanto.
Mas sabemos que o tempo resume as coisas ao osso, enxuga os excessos e delineia o contorno dos afetos. E no caso dela, a juventude lhe servia ao caráter, por assim dizer, como um biombo a proteger-lhe dos olhares curiosos. Ser bela e virtuosa era o bastante para os julgamentos apressados sobre ela. Pouco se indagava, durante as conversas, sobre o que ia além de sua inocência sobre quaisquer assuntos (tais como viagens, pessoas, amores, tudo...) E bastava um sorriso, a visão de seus dentes brancos, para que a percepção de seu caráter se tornasse um tanto turva, tal qual a superfície de um lago crispado subitamente sob um céu escuro...
E só daí então se pode falar sobre a afetação de sua candura, sobre a leviandade de seus receios mais tolos (no que a palavra "tolo" tem de menos gracioso) bem como de sua aversão a tomar partido pelas pessoas. Tão nova e "sacada," já sabia se investir de bocas e caras, querendo agradar a todos, meu deus, pobres moços... Com a voz embargada, dando conselhos, franzindo o cenho e emulando apenas aquele restinho de brilho que sua beleza transpirava, semi consciente da própria percepção embotada, dizia de si que, embora jovem, sabia muito bem do que se tratava. E sempre – sempre! – atropelando sua audiência com afirmações de soberba do tipo "eu sei, eu sei, eu sei", proferindo em seguida, em tom de advertência, um "olha..."
escrito em
2.2.06
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Um aviso: procura-se um iPod branco, no formato de uma saboneteira, perdido na região central da cidade de São Paulo na tarde de ontem. O sofisticado aparelho, com 30 Gb de memória, foi deixado em cima do balcão de um botequim, situado nos arredores da Praça da Sé, durante uma parada estratégica no banheiro do estabelecimento. Seu dono, que não quis se identificar, disse que esvaziou a mochila para pegar sua carteira e, por descuido, deve ter-se esquecido de recolher o aparelho. "Não deu nem tempo de levantar a tampa do vaso," desabafa. "Uns quinze ou vinte segundos, no máximo, e quando eu voltei ele já não estava mais lá."
escrito em
10.1.06
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24.12.05
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21.12.05
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