O glamour da arte (mas não do artista)

Vejamos o escritor, esse ser "misterioso", fascinante e narcisista, arquiteto de universos e romances: uma espécie de deus. Pode ser inclusive aquele homem soturno, habitué de cafés, com seu cachecol kitsch em nosso verão tropical. Mistura de existencialismo e carnaval, também conhecido como filósofo-folião.

E quanto aos artistas plásticos, vulgarmente conhecidos como pintores (para seu desespero)? Detestam falar sobre suas influências, uma vez que se julgam incomparáveis. Preferem, aliás, citar sempre obras desconhecidas, que ninguém viu, de modo que a comparação seja evitada e possam além disso gozar da fama de terem resgatado ou relançado alguma coisa injustiçada pelo establishment.

Diferentemente dos artistas plásticos, os músicos, por sua vez, simplesmente amam citar suas referências. Gostam, inclusive, de citar que são músicos. Vejo que ultimamente alguns músicos se preocupam tanto em rastrear suas influências, o que gostam de ouvir por exemplo, que acabam se descuidando com o que se faz ouvir. Sabe como é, do prato à boca perde-se a sopa...

Ah, não nos esqueçamos dos homens e mulheres de teatro. O fato é que a tela onde pintam ou o papel em que escrevem pertence aos domínios não só da personalidade como também aos domínios do corpo. São, ao mesmo tempo, criadores e criaturas, e o mesmo esmero que o pintor emprega na tela, eles, os atores, aplicam a si mesmos, de modo que o zelo pela obra ou personalidade pode às vezes incorrer numa descarada egolatria...

Segunda amena

Sim: eu sou um sonhador. Porque um sonhador é aquele
que só consegue se encontrar sob o luar, e seu
castigo é que ele vê o amanhecer antes dos outros.
(The Critic as Artist, Oscar Wilde)

O frio baixou aqui em São Paulo e agora as estrelas cintilam nalgum lugar além das nuvens escuras e espessas. 11 graus no relógio da Avenida Pacaembu. Ainda não soltaram outras fotos de prisioneiros de guerra, não houve greve no metrô, nenhum incidente na 25 de Março, o clima tá manero e tudo hoje à noite segue seu curso com suave diligência -- como se a paz fosse um hábito -- e eu, da janela do apartamento (um close em meus olhos denuncia alguma inquietação), eu, pensando nalguns temas amenos como Deus ou morango de sobremesa, tenho a impressão esquisita de que o mundo não gira como querem os cientistas ou os ateus.

Austeridade é...

Austeridade é, bem cedo, sob aquela garoa fria, comer um naco de pão com manteiga quente, de pé, no balcão de uma padaria qualquer; é pegar o metrô, semi-acordado, com a sensação de que despertar mais cedo e passar frio nos possam tornar mais dignos; é abandonar a cama aquecida de manhã, molhar as faces com água gelada e não deixar que ela acorde; é cobri-la com o cobertor e depois um beijo; é a fumaça do cigarro do porteiro. Austeridade é isso e também o cheiro de café nos corredores de uma empresa; é não ter sossego (exceto sob condições adversas). Ou ainda: ser austero é a sina do homem sério.

"O Mal da Partida"

Eu serei sempre o amante hipotético e afoito
dos mares azulados e das longas travessias,
e morrerei numa noite igual a todas as noites,
sem ter rompido a vaga linha do horizonte um dia.

(...)

Dentro em pouco deixarei de falar nas longas viagens;
os amigos irão pensar que eu as tirei da mente,
e aliviada minha mãe dirá a quem lhe perguntar:
"Era um capricho de rapaz, que passou felizmente."

Mas certa noite diante de mim vai-se erguer o meu eu
para pedir-me contas, como um juiz tenebroso,
e esta minha mão inábil apontará tremendo
o revólver para abater sem medo o criminoso.

E eu que tanto desejei ser um dia sepultado
em algum mar das Índias, de profundezas enormes,
terei essa morte comum, deveras lamentável,
e um enterro igual ao de todos os outros homens.

(Poesia Moderna da Grécia > Kavvadías > José Paulo Paes)

Verão de 2002

A canção não é exatamente a do Legrand; nem tenho visto nenhuma Jenni-fer O'Neill (com aquele ar dócil-delicado de menina comportada). Foi só há dois anos, e também não era aquela praia desbotada, em tom sépia (eu lhe digo que não era nem litoral norte paulista.) Ah, os dias eram longos e vazios, e chovia -- pelo que digo que era Ubatuba! -- e qualquer sentimento era leve e arredio como a brisa marítima que o solstício nos trazia à tarde, o rumor líquido das árvores, o choro encoberto pelo bramido das ondas.

OBS. talvez o candor do sol nos tenha abatido como ao Messieur Mersault, "O Estrangeiro," de Camus.

Ma Fleurette Paulistaine

Quase nunca ela pára (exceto quando trabalha) e assim vai pra casa, de pé no metrô lotado, lendo os "fragmentos" do Roland Barthes, presente meu (o último) de quando ainda nos gostávamos... Cabelos curtos fazem jus à fama de mulher do teatro e os olhos grandes rasgados fazem dela um mangá. Naquele tempo eu mal sabia, mas naquela guria uma tal de Joana D'Arc revivia, libertária, feminista e devotada à causa pobre: uma espécie de heroína proletária. Dela agora ecoam algumas palavras (um desagravo): "um cara", "sério", "pensando em casar..."

Sketches of São Paulo

E no Anhangabaú, de frente ao teatro, sentado nos degraus, suponha que as estátuas todas acordem e corram. Imagine então, e peço licença ao John Lennon, se não houvesse guerra nem violência, o que seria de um passeio à rua 25 de março? Como seria o amanhecer na rua Aurora? Ou então que maravilha não seria andar na Luz à noite? Que espécie de crença envolve a esperança de que um dia tudo volte a ser como antes? Será que a história desta cidade vai-se limitar à memória de postais desbotados numa banca?

Elogio ao gelo

Aqui em São Paulo as estações não duram mais que uma semana: um dia é quente, o outro morno, até que um dia acordamos com frio. Então os casacos saem do armário e aquela brisa de ontem já não é tão agradável como supunham os adeptos da regata. Esses daí adoram um mormaço, um ambiente viciado; o incômodo suor das axilas, o cheiro de corpo im-pregnado; amam o sebo, o ranço e o claustro. A essa temperatura os pensamentos não se conservam, derretem mais rápido. E para o bom entendedor, pingo é letra; a vingança, um prato.

A arte do desencontro

Este assunto, este assunto eu conheço bem... É uma arte (que uns almejam e outros julgam entender); é a sensação derrisória de quando pensamos que não há nada além de amor no mundo, mas que estou só; ou quando vislumbramos um destino cujo caminho não sabemos, pelo qual nunca passamos, até porque ele nos leva até nós mesmos.

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Entre os amantes é necessário que os movimentos sejam contínuos e simultâneos. Como é impossível, bem sabido pela Física, dois corpos ocuparem o mesmo lugar ao mesmo tempo, coincidências deveriam ser malvistas.

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Tomemos um exemplo mais concreto: quando ele fez que ia, ela não quis. Fácil demais ser feliz, disse a si mesma, convém resistir (ela não via que o orgulho estava bem debaixo do nariz.) Mas tudo tem limite, e quantos sábios não se criam de improviso, ao passo que um dia ele cessou suas súplicas: dela não tardaram as réplicas (tudo muito súbito...) e daí para o mal que é relativizar a própria relação foi um passo (tudo muito súbito...) do concreto ao abstrato.

Florbelas

"A sua sede de Infinito levou-a a procurar a plenitude num amor sonhado mais do que sentido, vivendo num paroxismo de se querer dar e de não ser de ninguém." (da contracapa de uma edição portuguesa de Florbela Espanca)