Manhã no Mercado Municipal
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1.12.05
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Old Boy
Lendo e relendo o que foi escrito até agora pela imprensa a respeito de Old Boy (2004), do diretor coreano Park Chan-wook, não fui capaz de descobrir sequer uma crítica negativa a respeito desse filme, o que talvez seja, a meu ver, um reflexo da imensa aceitação do cinema oriental junto às platéias do Ocidente. Não estou querendo dizer aqui que todo filme coreano, japonês ou chinês seja bom, mas é inegável que seus cineastas cada vez mais têm produzido excelentes filmes, com roteiros e atuações, pra dizer o mínimo, infinitamente superiores ao que tem sido feito na América.
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1.12.05
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Bovary em Fortaleza
Como aquela esposa lângüida que alisa as próprias madeixas sentada de frente à penteadeira, queixosa e carente, olhar perdido em si mesma; saudosa do marido, que lhe despacha por email algumas frases de carinho (espécie de marchand ou caixeiro-viajante persistente), ela agora mal pode lembrar-se, sem sofrer, de um turista que conheceu no sagüão do aeroporto, perdida!, o qual ela pensou se tratar de um desses agentes enviados por alguma companhia de turismo... Mas as ranhuras do espelho ela conhece bem, além do nome do hotel bordado na roupa de cama que ultimamente a tem deixado entristecida... Ah, caro leitor, mas o que não é a lascívia! as noites mal dormidas, o céu sem estrelas e o rumor indistinto nos corredores (a decepção de atender à porta e só encontrar a camareira...)
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1.12.05
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Cada país tem os educadores que merece
Não, não se trata de um editorial do Gilberto Dimenstein, mas sim de algumas palavras sobre o recém lançado DVD do filme "The Edukators", uma produção germânica con-temporânea e, pelo fato mesmo de ser alemã, contundente e corrosiva. Atuações fortes, bom roteiro, luz natural, música pop e, o mais importante, uma abordagem sen-sível para um tema espinhoso: a vida daqueles que não se conformam com o sistema capitalista.Seguindo uma premissa levemente parecida com a de "Os Idiotas", do Manifesto Dogma, "Edukators" mostra como os destinos de três jovens se entrelaçam em torno de uma causa, por que não dizer, subversiva (eles invadem sistematicamente mansões de pessoas abastadas para "subverter" coisas como a ordem da mobília, por exemplo) sempre tomando cuidado para não deixarem pistas nem levarem nada. A idéia é somente apavorar essa burguesia abastada, assombrá-la, deixando ainda, antes de saírem do local, uma carta na qual se lê o seguinte augúrio: "seus dias de fartura estão contados".
A parceria estabelecida entre dois amigos (ver foto) nessas intervenções é abalada quando a namorada de um deles se apaixona pelo amigo de seu namorado, o qual, sendo o mais idealista dos três, acaba contando a ela sobre suas ações secretas. Não demora muito para que ela queira se juntar à dupla para vingar-se de um rico empresário, o qual ainda move uma ação contra ela em decorrência de um acidente de automóvel, ocorrido tempos atrás, que praticamente a endividou para o resto da vida. A brincadeira, contudo, dá errado e eles são obrigados a seqüestrar o empresário quando este, inesperadamente, chega a sua casa no meio da ação e reconhece a garota. E é aí então que o filme começa a ficar bom.
Embora o roteiro do filme, a partir desse ponto, traga uma grande contribuição ao conflito de gerações, trazendo à nossa mente aquele dito segundo o qual o homem é um incendiário na juventude e um bombeiro depois de maduro, o desfecho não deixa de ser “centrista”.
Trocando em miúdos, o filme não desce do muro. A relação que se estabelece durante o cativeiro entre o yuppie e os jovens idealistas é sensacional do ponto-de-vista humano, ensejando momentos antológicos (chegamos a nos identificar com o opressor... mas quem oprime quem afinal?) enquanto se dá uma lenta e sutil identificação entre o conservador e os liberais que, afinal, nem eram tão liberais assim. E acontece que quando achamos que os papéis irão se inverter, isso não ocorre. E os dois lados, cada um à sua maneira, acabam se dando bem. A Síndrome de Estocolmo para a qual o filme até então vinha caminhando não persiste afinal. Uma pena, pois para uma abordagem surpreendente, um final demasiado prudente... Mas assim é a política, assim é a vida.
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1.12.05
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674C
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1.12.05
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"E nadi contra suberna"
Num salto homérico de Lógica, podendo eu com isso perder alguns amigos (o gênero post e os epigramas, neste aspecto, deveriam dialogar), saio do prato à boca deduzindo de tudo isso que a questão da Lei está longe de se esgotar. Intelectuais, desesperados após sessões de cinema (emoldurados pela fumaça do cigarro), balbuciam indiscriminadamente palavras como "angústia" e "influência", comprometendo-se exageradamente com essa discussão. São elliotianos no que têm de pessimistas sobre a eterna "inovidade" (bricollage é palavra proibida; o passadismo, uma válvula de escape).
E por essas e outras, os artistas e pensadores (a diferença é que os segundos só pensam) que outrora acreditaram nisso hoje possuem milhares de livros "explicando" suas obras (um fato alarmante). Façam um teste: juntem todos os livros que já foram escritos buscando elucidar as referências eruditas de James Joyce... (aí só um galpão mesmo para dar conta dessa bibliografia faraônica).
Tudo isso, eu dizia, para ilustrar que nadar contra a corrente pode ter compensações (repito: não há garantias). Afinal, o turista que abandona a excursão não deveria estar atrás da melhor foto? Do contrário, como atalhos seriam descobertos? Se o que vemos é a vanguarda estar associada, para alguns, aos que morrem primeiro na guerra (a linha de frente) não seria conveniente ressaltarmos que isso foi em benefício de quem ficou na retaguarda?
A metáfora futebolística, contudo, será excusada se considerarmos que alguns atacantes, vez por outra, não saem da "banheira". E aqui devemos ir com calma: a banheira, para os marxistas, estaria associada à parte mais especializada no processo de produção (a quem cabe, a contragosto do meio-campista que carrega o piano, os louros da fama). Por outro lado, a atitude daquele que não volta para ajudar os que ficaram para trás, de certa forma, não caracterizaria um abandono? Uma traição?
Mas toda traição necessariamente exclui a gratidão? Uma ordem não foi criada apenas para ser subvertida. Aliás, uma ordem deveria ser um divisor de águas: a partir do cumprimento ou não de seu desígnio, eu diria, a vida se criou. E partir da ordem é que temos o que é certo e errado (às vezes a ordem é errônea, mas apenas desse modo se soube como seria o acerto). Como todo conceito primitivo, "uma rosa é uma rosa" é tão verdadeiro quanto dizer que ordem é ordem (tal qual aquele subalterno que assim se desculpa por não questionar o que lhe disseram).
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1.12.05
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Tiradas do interior
É a sensação de quem chega num ambiente e a conversa, até então fluente e animada, subitamente dá lugar a um silêncio ou pergunta solitária do tipo "tem horas?" Outra imagem que não sai da cabeça é a do monte de feno rolando (só a porta é que não era a de um saloon) embora sempre as mesmas pessoas ficassem olhando, sejam através das janelas ou agachadas atrás do balcão (clichê do faroeste que hoje encontra equivalente no insulfilm covarde dos carros e atrás da hipocrisia dos óculos escuros blindados).
Funciona assim: "amiga de quem mesmo? Onde ela mora? Do sobrenome você se recorda? (Da marca do carro bem que você lembra...) Já foi namorada de quem? Quarta série quando? Em que colégio? De que tamanho? Aquela que chorava no recreio? A que perdeu a virgindade pro beltrano?"
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1.12.05
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Um toque
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1.12.05
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Tiradas do interior
É a sensação de quem chega num ambiente e a conversa, até então fluente e animada, subitamente dá lugar a um silêncio ou pergunta solitária do tipo "tem horas?" Outra imagem que não sai da cabeça é a do monte de feno rolando (só a porta é que não era a de um saloon) embora sempre as mesmas pessoas ficassem olhando, sejam através das janelas ou agachadas atrás do balcão (clichê do faroeste que hoje encontra equivalente no insulfilm covarde dos carros e atrás da hipocrisia dos óculos escuros blindados).
Funciona assim: "amiga de quem mesmo? Onde ela mora? Do sobrenome você se recorda? (Da marca do carro bem que você lembra...) Já foi namorada de quem? Quarta série quando? Em que colégio? De que tamanho? Aquela que chorava no recreio? A que perdeu a virgindade pro beltrano?"
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20.10.05
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