Bovary em Fortaleza

Como aquela esposa lângüida que alisa as próprias madeixas sentada de frente à penteadeira, queixosa e carente, olhar perdido em si mesma; saudosa do marido, que lhe despacha por email algumas frases de carinho (espécie de marchand ou caixeiro-viajante persistente), ela agora mal pode lembrar-se, sem sofrer, de um turista que conheceu no sagüão do aeroporto, perdida!, o qual ela pensou se tratar de um desses agentes enviados por alguma companhia de turismo... Mas as ranhuras do espelho ela conhece bem, além do nome do hotel bordado na roupa de cama que ultimamente a tem deixado entristecida... Ah, caro leitor, mas o que não é a lascívia! as noites mal dormidas, o céu sem estrelas e o rumor indistinto nos corredores (a decepção de atender à porta e só encontrar a camareira...)

Cada país tem os educadores que merece

Não, não se trata de um editorial do Gilberto Dimenstein, mas sim de algumas palavras sobre o recém lançado DVD do filme "The Edukators", uma produção germânica con-temporânea e, pelo fato mesmo de ser alemã, contundente e corrosiva. Atuações fortes, bom roteiro, luz natural, música pop e, o mais importante, uma abordagem sen-sível para um tema espinhoso: a vida daqueles que não se conformam com o sistema capitalista.

Seguindo uma premissa levemente parecida com a de "Os Idiotas", do Manifesto Dogma, "Edukators" mostra como os destinos de três jovens se entrelaçam em torno de uma causa, por que não dizer, subversiva (eles invadem sistematicamente mansões de pessoas abastadas para "subverter" coisas como a ordem da mobília, por exemplo) sempre tomando cuidado para não deixarem pistas nem levarem nada. A idéia é somente apavorar essa burguesia abastada, assombrá-la, deixando ainda, antes de saírem do local, uma carta na qual se lê o seguinte augúrio: "seus dias de fartura estão contados".

A parceria estabelecida entre dois amigos (ver foto) nessas intervenções é abalada quando a namorada de um deles se apaixona pelo amigo de seu namorado, o qual, sendo o mais idealista dos três, acaba contando a ela sobre suas ações secretas. Não demora muito para que ela queira se juntar à dupla para vingar-se de um rico empresário, o qual ainda move uma ação contra ela em decorrência de um acidente de automóvel, ocorrido tempos atrás, que praticamente a endividou para o resto da vida. A brincadeira, contudo, dá errado e eles são obrigados a seqüestrar o empresário quando este, inesperadamente, chega a sua casa no meio da ação e reconhece a garota. E é aí então que o filme começa a ficar bom.

Embora o roteiro do filme, a partir desse ponto, traga uma grande contribuição ao conflito de gerações, trazendo à nossa mente aquele dito segundo o qual o homem é um incendiário na juventude e um bombeiro depois de maduro, o desfecho não deixa de ser “centrista”.

Trocando em miúdos, o filme não desce do muro. A relação que se estabelece durante o cativeiro entre o yuppie e os jovens idealistas é sensacional do ponto-de-vista humano, ensejando momentos antológicos (chegamos a nos identificar com o opressor... mas quem oprime quem afinal?) enquanto se dá uma lenta e sutil identificação entre o conservador e os liberais que, afinal, nem eram tão liberais assim. E acontece que quando achamos que os papéis irão se inverter, isso não ocorre. E os dois lados, cada um à sua maneira, acabam se dando bem. A Síndrome de Estocolmo para a qual o filme até então vinha caminhando não persiste afinal. Uma pena, pois para uma abordagem surpreendente, um final demasiado prudente... Mas assim é a política, assim é a vida.

674C

Aqui nos despedimos. Não seria desta vez que dizer adeus deixaria de ser cafona, ainda que tudo dependa de como essa palavra pode ser dita ou se até mesmo, de improviso, ela for menos um sorriso do que uma cara de choro na porta do ônibus. O aumento no ronco do motor nos avisa que eu, dali em diante, seria só mais um figurante parado no ponto, abandonado aos solavancos, tragado pela perspectiva de quem fica enquanto o outro se afasta cada vez mais e mais (até que fique esquecido) e se possa, com relativo sucesso, virar as costas e partir (sem lembrar que alguém ficou pra trás). Como se fosse hora de ir pra casa.

"E nadi contra suberna"

O fato de se estar fazendo algo que no momento pessoa nenhuma no mundo deve estar fazendo (ou a maioria pelo menos não) nos dá a sensação de estar na contra-mão de algum processo natural, o que não deveria, pelo menos a princípio, servir de motivo de orgulho a ninguém. Deveria, antes, servir de aprendizado (nunca mais ser a ovelha desgarrada). Mas aparentemente essa postura de se afastar do establishment ou mainstream (seja lá qual for o nome) para se arriscar no desconhecido vem criando um efeito colateral: a ignorância pela ignorância. Vale dizer, a desobediência pela desobediência. Um palpite: não seria o caso de uma rebeldia sem causa?

Num salto homérico de Lógica, podendo eu com isso perder alguns amigos (o gênero post e os epigramas, neste aspecto, deveriam dialogar), saio do prato à boca deduzindo de tudo isso que a questão da Lei está longe de se esgotar. Intelectuais, desesperados após sessões de cinema (emoldurados pela fumaça do cigarro), balbuciam indiscriminadamente palavras como "angústia" e "influência", comprometendo-se exageradamente com essa discussão. São elliotianos no que têm de pessimistas sobre a eterna "inovidade" (bricollage é palavra proibida; o passadismo, uma válvula de escape).

E por essas e outras, os artistas e pensadores (a diferença é que os segundos só pensam) que outrora acreditaram nisso hoje possuem milhares de livros "explicando" suas obras (um fato alarmante). Façam um teste: juntem todos os livros que já foram escritos buscando elucidar as referências eruditas de James Joyce... (aí só um galpão mesmo para dar conta dessa bibliografia faraônica).

Tudo isso, eu dizia, para ilustrar que nadar contra a corrente pode ter compensações (repito: não há garantias). Afinal, o turista que abandona a excursão não deveria estar atrás da melhor foto? Do contrário, como atalhos seriam descobertos? Se o que vemos é a vanguarda estar associada, para alguns, aos que morrem primeiro na guerra (a linha de frente) não seria conveniente ressaltarmos que isso foi em benefício de quem ficou na retaguarda?

A metáfora futebolística, contudo, será excusada se considerarmos que alguns atacantes, vez por outra, não saem da "banheira". E aqui devemos ir com calma: a banheira, para os marxistas, estaria associada à parte mais especializada no processo de produção (a quem cabe, a contragosto do meio-campista que carrega o piano, os louros da fama). Por outro lado, a atitude daquele que não volta para ajudar os que ficaram para trás, de certa forma, não caracterizaria um abandono? Uma traição?

Mas toda traição necessariamente exclui a gratidão? Uma ordem não foi criada apenas para ser subvertida. Aliás, uma ordem deveria ser um divisor de águas: a partir do cumprimento ou não de seu desígnio, eu diria, a vida se criou. E partir da ordem é que temos o que é certo e errado (às vezes a ordem é errônea, mas apenas desse modo se soube como seria o acerto). Como todo conceito primitivo, "uma rosa é uma rosa" é tão verdadeiro quanto dizer que ordem é ordem (tal qual aquele subalterno que assim se desculpa por não questionar o que lhe disseram).

Tiradas do interior

A caminho de casa, de carro, desviando dos buracos e tomando o cuidado de não esbar-rar o pára-choque na perna de um incauto, medito sobre a reação agressiva do "homem do campo", do sujeito provinciano, a tudo o que ele desconheça (ao que às vezes dá-se o nome de preconceito). Eu não tinha em mente exatamente um Jeca Tatu, esse auto-retrato arrependido e atormentado de Lobato, mas do homem mesmo que, temendo a possibilidade de viver apenas relacionamentos tênues ou frívolos nas grandes cidades (onde ninguém conhece ninguém e onde seu nome não faz sombra na praça), acaba não abandonando seus parentes e compadres (espécie de quid pro quo familiar).

É a sensação de quem chega num ambiente e a conversa, até então fluente e animada, subitamente dá lugar a um silêncio ou pergunta solitária do tipo "tem horas?" Outra imagem que não sai da cabeça é a do monte de feno rolando (só a porta é que não era a de um saloon) embora sempre as mesmas pessoas ficassem olhando, sejam através das janelas ou agachadas atrás do balcão (clichê do faroeste que hoje encontra equivalente no insulfilm covarde dos carros e atrás da hipocrisia dos óculos escuros blindados).

Funciona assim: "amiga de quem mesmo? Onde ela mora? Do sobrenome você se recorda? (Da marca do carro bem que você lembra...) Já foi namorada de quem? Quarta série quando? Em que colégio? De que tamanho? Aquela que chorava no recreio? A que perdeu a virgindade pro beltrano?"

Um toque

A soma total de suas virtudes alcança um efeito final surpreendente se levarmos em conta que sua ambição também não é pouca (ela é, aliás, excessiva e contundente). Mas claro, digo isto tudo de coração (se é que se pode hoje em dia proferir a palavra humildade impunemente) sem nenhum arrependimento, lhe asseguro, da ordem de alguma vaidade equívoca ou orgulho.

Tiradas do interior

A caminho de casa, de carro, desviando dos buracos e tomando o cuidado de não esbarrar o pára-choque na perna de um incauto, medito sobre a reação agressiva do "homem do campo", do sujeito provinciano, a tudo o que ele desconheça (ao que às vezes dá-se o nome de preconceito). Eu não tinha em mente exatamente um Jeca Tatu, esse auto-retrato arrependido e atormentado de Lobato, mas do homem mesmo que, temendo a possibilidade de viver apenas relacionamentos tênues ou frívolos nas grandes cidades (onde ninguém conhece ninguém e onde seu nome não faz sombra na praça), acaba não abandonando seus parentes e compadres (espécie de quid pro quo familiar).

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É a sensação de quem chega num ambiente e a conversa, até então fluente e animada, subitamente dá lugar a um silêncio ou pergunta solitária do tipo "tem horas?" Outra imagem que não sai da cabeça é a do monte de feno rolando (só a porta é que não era a de um saloon) embora sempre as mesmas pessoas ficassem olhando, sejam através das janelas ou agachadas atrás do balcão (clichê do faroeste que hoje encontra equivalente no insulfilm covarde dos carros e atrás da hipocrisia dos óculos escuros blindados).

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Funciona assim: "amiga de quem mesmo? Onde ela mora? Do sobrenome você se recorda? (Da marca do carro bem que você lembra...) Já foi namorada de quem? Quarta série quando? Em que colégio? De que tamanho? Aquela que chorava no recreio? A que perdeu a virgindade pro beltrano?"

Como era gostoso meu "cearês"

Lá, além das fronteiras que os paulistas sôfregos julgam demarcar, norteado pela indolência e pelos subterfúgios da preguiça (se for mesmo verdade que o calor nos convida à sombra), onde o mar à terra engolfa e azul é o ar salpicado pela água (cuja luz, segundo Orson Welles, era comparável apenas à da costa da China), deixei para trás algumas expressões que, embora às vezes esdrúxulas e idiossioncráticas, eu jamais ouviria noutro lugar senão ali naquela terra de hábitos tão assimiláveis (e claro, sempre margeados pela mãe, o mar).

Descrições Geraes

De monogamia, embora inexista autoridade suficiente neste assunto, ela julga entender. A exemplo das amigas, a maioria mãe solteira, quer evitar a todo custo os comentários comezinhos, ou como já disseram os vizinhos, algo do tipo "mas que um pai fez falta, fez... " E segundo ela mesma, é mais amiga dos homens do que das mulheres, aos quais ela chama, delicadamente, de "meninos". E só pra constar, me disse outro dia que o ex-namorado dela é hoje o seu melhor amigo...

Contra a Parede

Longa turco-germânico é tudo aquilo que Hollywood gostaria de ser


Contra a Parede (2004), de Fatih Akin, é um daqueles filmes que os americanos adorariam aprender a fazer, faltando-lhes, no entanto, know-how para a tarefa. E cacife para fazer um filme desses, felizmente, nada tem que ver com produções milionárias e protagonistas conhecidos internacionalmente. Com um roteiro brilhante e atuações vigorosas, Contra a Parede é um soco no estômago daquelas pessoas acostumadas às histórias de amor sentimentalóides que Hollywood não se cansa de contar...

Sibel (Sibel Kekilli) é uma jovem de família muçulmana que procura desesperadamente escapar à rígida educação praticada por seus pais. Como se não bastasse, o irmão mais velho de Sibel é machista e superprotetor, com valores profundamente enraizados nas tradições de seu país. Diante de um histórico de tentativas de suicídio por parte da jovem, sua família resolve interná-la numa clínica, onde Sibel conhece Cahit (Birol Ünel), ao qual propõe, mesmo sem conhecê-lo direito, um casamento de fachada (com o intuito apenas de se livrar de sua família) uma vez que Sibel sabe sobre as raízes turcas de seu futuro pretendente.

Cahit, por sua vez, é um homem soturno e sem amor à própria vida, que vive de bar em bar bebendo e arranjando confusão desde que sua mulher morreu. Sua estadia na clínica onde mais tarde viria a conhecer Sibel aconteceu justamente por causa de um acidente (numa tentativa mais ou menos dissimulada de suicídio) envolvendo uma batida de carro a toda a velocidade contra um muro. A partir daí (e de onde parece advir o nome do filme) a vida do turco jamais seria a mesma. Uma vez casados, ambos levam suas vidas independentemente, cada qual com seus parceiros, e tudo parece ir bem até que Cahit, numa crise de ciúmes, mata um dos parceiros de Sibel, ao que termina cumprindo pena.

Contra a Parede é, no final das contas, uma história de amor tragicômica, já que não lhe faltam momentos risíveis como, por exemplo, quando Cahit, decidido a participar da farsa proposta por Sibel, vai até a casa da jovem formalizar um pedido de casamento aos pais dela. Porém, nem é preciso dizer que a ênfase do filme é na tragédia, de tal forma que o diretor Fatih Akin habilmente intercala momentos narrativos com números musicais típicos, o que acaba soando como um coro de tragédia grega ao cantar as desventuras de seus heróis.

(Sibel Kekilli, no papel da geniosa e desencontrada Sibel, é mais um exemplo de como uma direção "perfeita" resulta em atuações igualmente impecáveis. Apenas para constar, Sibel, na vida real, já foi estrela de filmes pornográficos, o que pode ou não explicar seu talento irreprimível para seduzir, seja Cahit ou o próprio espectador...)