Rocco i suoi fratelli

Quando vai à farmácia é sempre aquele comprar ou não comprar... (seus filhos não estão doentes, mas talvez ainda um vá se gripar.) Sair no sereno sem agasalho nem pensar! Ou ainda: sem mim será que vão-se acostumar?

O amor é mesmo sistemático, e se em casa amor não há, o grande amor da mãe é sua prole (depois vem o quintal e a sala-de-estar...) E no meio da noite aquela angústia, um vazio implacável, a vontade dela e a do outro tão longe (duas coisas indistintas...) Será que ele vai-se lembrar de fechar a janela? Quem lhe fará uma sobremesa como a minha? E assim se levanta, pega um copo na cozinha, volta e se cobre. E antes de dormir ela se indaga: será que um dia vão conseguir uma esposa?

Folhas de Outono (Autumn Leaves)

Aonde quer que estejamos situados no mapa-múndi, seja nos trópicos ou nas zonas temperadas, as coisas decaem com o advento do Outono (em inglês, fall pode ser "outono" ou "declínio"). Ou talvez se queira formular assim: no Outono as coisas morrem. Ou talvez não morram necessariamente, talvez apenas durmam para na estação seguinte voltarem triunfantes (feito uma Fênix de folhas secas).

Mas do lado de cá do equador, embora não tenhamos frio nem tantas folhas no chão, também temos nossas épocas, e sabemos, como os antigos instintivamente o sabiam (vide a fábula da cigarra e a formiga) que pra tudo há um tempo, uma ordem na qual as coisas devem ser feitas. Antes de tudo, a vida requer preparo (para as alegrias e os infortúnios). E se o tempo muda e as árvores se agitam -- um vento frio nos corta o rosto -- sabemos, no aconchego do pensamento, que o Outono é o prelúdio que precede o Final. De modo que...

Os investimentos metafísicos

Amigo, se você quiser comprar seu lugar no paraíso, comece já a pagar suas parcelas (dividir é a melhor maneira pra quem não pode à vista). Já me explico: por que deveríamos dever uns aos outros se o exemplo de Jesus serviu justamente para que pudéssemos dar um calote coletivo? Enunciar "acredito em Deus" seria a assunção de uma dívida pública, um mea culpa? Só sei que nos dias de hoje há uma maioria que aprecia externar suas dívidas de gratidão por supostas graças alcançadas, mas até que ponto essa nota fiscal não foi super-faturada? E se engana quem pensa furtar-se à Receita: o nosso Deus credor é aquele mesmo que elabora nossa restituição, e ai do cristão que cair em Sua malha fina...

Countryside blues

Se há um mal a destacar nestes "tempos difíceis" (como diria Dickens) sem sombra de dúvida eu destacaria o banzo ou a saudade da terra natal... Não foram apenas os escravos portadores exclusivos desse sentimento de angústia, mas desde a simpática mineira bem nascida até o pernambucano acabrunhado a saudade se faz sentir aqui em São Paulo (e em tantas outras capitais) às vezes como dádiva e às vezes pura falta. Imagine para aqueles crescidos no campo ou cidadelas, acostumados com o céu cheio e sem as aparas de uma janela, viver em pombais-apartamentos...

Complexo de Dona Flor

É oito ou oitenta: se a vida é um romance do Jorge Amado, ou somos malandros ou somos farmacêuticos, podendo oferecer a essas flores tão somente nossa paixão ou nossa amizade, respectivamente. Ainda segundo essa oposição, podemos feri-las ou respeitá-las; educá-las ou sermos educados; sermos amados ou amáveis. Mas por que nunca as duas coisas juntas? Como saber? Na dúvida entre o que elas desejam ou precisam, a tática do "morder & soprar" seria a saída?

Black Moses

É o nome de um disco do Isaac Hayes (que aliás não me canso de citar). A última que descobri dele, além dos funks de perseguição, ao que alguém pode retrucar "ah, só agora você soube?", é que a belíssima batida e o acompanhamento incidental da música "Glory Box" (aquela célebre do Portishead) foram sampleados de um clássico anterior do mesmo Hayes, "Ike's Rap II". Fiquei de cara porque o Portishead não mudou praticamente nada do que eu achava ser fundamental na canção -- o que coincide, por sua vez, com tudo aquilo que venho admirando na orquestração romântica e pungente de Hayes. Será ele uma espécie de profeta do romantismo black como se propõe, arrojado?

Este post destina-se, no mínimo, àqueles que conhecem pelo menos essa música do Portishead, Glory Box, ou aos interessados em música negra e suas influências (nada angustiantes). E aonde encontrar músicas desse Moisés preto? Dá-lhe Kazaa Downloads. Afinal, música é quase uma religião (é ouvir pra crer...)

Os credores do mundo: lições de economia sentimental

O que fazer para diminuir as taxas de inadimplência afetiva? Uma boa solução, já apontada por políticas sentimentais anteriores (os ditos "clássicos"), seria a declaração da moratória de uma dívida que todos sentem em relação ao mundo: isto é, precisamos acabar com os "credores do mundo". E para isso, infelizmente, vale a máxima "é preciso perdoar"... Um potencial credor do mundo é aquele que está sempre acusando seu parceiro econômico de "receber sem se dar", e com isso essa dívida pública acaba virando uma bola de neve. Há tantas pessoas (pelo menos eu conheço um monte) acreditando que a vida deve a elas alguma coisa... Qual a conseqüência? O banco central já mandou imprimir tantas notas promissórias para o desejo que o mercado hoje em dia está inflacionado de paixões, muitas das quais sem lastro nesse mercado simbólico que é o viver. E isso favorece a especulação... Estou sendo claro?

Não por mim...

Estão escrevendo canções de amor por aí graças a uma estrela que brilha lá em cima, mas que não brilha por mim... Com o amor me mostrando o caminho eu encontrei os dias mais cinzas que nenhum romance russo vai jamais reproduzir... Fui tolo quando caí, ficando desse jeito, e embora eu fracasse em esquecer do seu beijo, acho que não era mesmo pra mim...

PS.: antes que eu me esqueça, a queixa acima foi por mim livremente traduzida do standard jazzístico "But not for me", dos irmãos Gershwin, e tanto Chet Baker como Billie Holiday foram responsáveis pelas melhores versões desse clássico... (quem foi que disse que uma canção brilhante soa anti-natural se apenas lida ao invés de cantada?)

Cartas na mesa

Os naipes são o mais bonito: preto e vermelho, o veneno e o antídoto. E às vezes valem mais na mão do que na mesa. É uma questão de mostrar e esconder. Um carta na mesa é um ato de afirmação por excelência. Mas uma carta na mão é apenas uma carta. Aquele dia bebemos bastante, e como sou um novato no jogo de buraco, posso dizer que fui até muito bem. E é bem sabido que buraco é um jogo de gente que fala com desenvoltura, talento esse que não é pouco nos dias de hoje. Ou seja: é justamente uma boa conversação o que anima esse tipo de jogo (ou até quem sabe uma boa compra ou um bom descarte...) Mas daí dizer que "viver é saber comprar ou descartar" já é incorrer numa metáfora fácil e propensa a chavões à la "jogo da vida". Quem sabe viver seja um bluff?

Um estudo debochado sobre as relações entre "malhar" e "autoflagelar-se"

"Tanta gente tem o corpo tão bonito
mas tem a alma toda tatuada..."
(Nelson Cavaquinho/Guilherme de Brito)
Ir pra academia, correr, levantar pesos, suar, extenuar-se e olhar-se no espelho... e nada. Nada, dia após dia, nada, até que das cinzas de um mês árido, oprimido pelo suor e as anilhas, você se descobre impávido revestido de um bíceps, um tórax, um trapézio e um abdômen cuja definição pode fazer de você um "eleito". É aquela velha história (da carochinha): corpo são, mente sã. É mentira! como diz o padre "Queazedo". Não malhar traz culpa para alguns, isso é bem sabido. E eu não diria que a academia é uma igreja, mas sim um templo. E nele, sob constrição (de ferros e pesos), oramos com devoção, partilhamos do sagrado isotônico e ingerimos copiosamente as divinas proteínas.

Sabem que esse tema me inspirou um outro? Numa outra ocasião, farei uma palestra sobre "tatuagem & atitude".